Pôster de Vidas Passadas (2023)
Crítica OverFlix

Crítica: Vidas Passadas

2023 · 1h 46min · Romance, Drama

Direção: Celine Song

Elenco: Greta Lee, Teo Yoo, John Magaro

4,5de 5
Excelente

Vidas Passadas: Celine Song filma o amor que poderia ter sido com rara delicadeza

Cena de Vidas Passadas
Cena de Vidas Passadas · Imagem: divulgação

Sinopse: Na Coreia do Sul, Na Young e Hae Sung são colegas de escola inseparáveis até que a família dela emigra. Doze anos depois, eles se reencontram pela internet; outros doze anos se passam até que Hae Sung viaje a Nova York, onde ela, agora chamada Nora, vive casada e trabalha como dramaturga.

Vidas Passadas é um filme sobre o que não acontece. Não há grandes reviravoltas, vilões ou declarações gritadas na chuva; há olhares que duram um segundo a mais, silêncios que pesam e uma ideia coreana, o in-yun, a noção de que encontros são fruto de incontáveis vidas anteriores, que dá ao romance uma dimensão quase espiritual. Em sua estreia na direção de longas, a dramaturga Celine Song entrega um drama de contenção admirável, que confia no espectador e na força de um rosto bem filmado para dizer o que as palavras não alcançam.

Qual é a história de Vidas Passadas?

O filme se divide em três tempos. Primeiro, a infância em Seul, quando Na Young e Hae Sung voltam juntos da escola e trocam provocações com a ingenuidade de quem tem doze anos. Depois, a juventude, em que os dois, agora com vinte e poucos, se reencontram por videochamadas, numa relação à distância marcada por fusos horários, conexões instáveis e a impossibilidade de largar tudo. Por fim, a vida adulta, quando Hae Sung finalmente cruza o oceano para visitá-la.

Nora, como Na Young passou a se chamar, está casada com Arthur, um escritor americano, e construiu uma vida inteira em inglês. O encontro em Nova York não é sobre retomar um romance, mas sobre medir a distância entre quem ela era e quem se tornou. Celine Song, que parte de experiências próprias de imigração, conduz essa visita com a paciência de quem sabe que o drama mora nas entrelinhas, e não nos acontecimentos.

Como é a direção de Celine Song?

Vinda do teatro, Song surpreende pela segurança com que pensa em imagens. O plano de abertura, em que três pessoas são observadas num bar enquanto vozes fora de quadro especulam sobre a relação entre elas, já estabelece o jogo do filme: somos convidados a ler aquilo que os personagens não verbalizam. A direção evita o melodrama e prefere enquadramentos amplos, que deixam os atores respirarem e colocam a cidade como testemunha silenciosa de cada hesitação.

A fotografia de Shabier Kirchner, rodada em película, dá a Seul e a Nova York uma textura calorosa e granulada, longe do cartão-postal. Há uma cena num carrossel e outra junto ao rio que dizem mais sobre desejo e renúncia do que muitos roteiros inteiros. A trilha de Christopher Bear e Daniel Rossen surge com parcimônia, em notas suspensas que acompanham as pausas em vez de ditar emoções. Tudo é calibrado para que o impacto venha da soma de pequenos gestos.

Greta Lee e Teo Yoo convencem como casal?

Greta Lee tem a tarefa mais complexa: Nora é ambiciosa, prática, às vezes ríspida, e carrega uma saudade que se recusa a nomear. A atriz trabalha no detalhe, com mudanças sutis de postura quando passa do inglês para o coreano, como se cada idioma acionasse uma versão diferente da personagem. Teo Yoo compõe um Hae Sung tímido e um pouco antiquado, cujo afeto é tão evidente quanto contido, e a química entre os dois depende justamente daquilo que nunca se concretiza.

A grande surpresa, porém, é John Magaro. Arthur poderia ser apenas o obstáculo de um triângulo amoroso, mas o ator e o roteiro o transformam no personagem mais generoso da história: um homem consciente de que existe uma parte da esposa à qual jamais terá acesso. Uma conversa do casal na cama, sobre o que aconteceria se outra pessoa estivesse ali no lugar dele, está entre os diálogos mais bonitos e honestos do cinema recente.

Vale a pena assistir Vidas Passadas?

Vale muito, especialmente para quem gosta de romances adultos no espírito da trilogia Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, comparação inevitável e merecida. Vidas Passadas tem pouco mais de cem minutos e um ritmo deliberadamente lento, o que pode afastar quem espera um drama mais movimentado. Quem se entrega ao seu tempo, porém, encontra um filme que ressoa de forma particular em quem já mudou de cidade, de país ou de vida e se perguntou quem teria sido se tivesse ficado.

O longa foi indicado ao Oscar de melhor filme e de roteiro original, reconhecimento expressivo para uma estreia. A nota não é máxima porque, em alguns momentos, a contenção beira a frieza, e o segundo ato, o das videochamadas, perde um pouco de fôlego em relação aos outros dois. São ressalvas pequenas diante de um desfecho de rara precisão emocional, que preferimos não descrever: é melhor senti-lo sem nenhum aviso.

✔ Pontos positivos

  • Roteiro sutil e maduro sobre escolhas e imigração
  • Atuações contidas e precisas do trio principal
  • Fotografia e trilha que valorizam o silêncio

✖ Pontos negativos

  • Ritmo lento pode afastar parte do público
  • Trecho intermediário perde força
Veredito · 4,5/5

Um romance de gestos mínimos e efeito duradouro. Celine Song estreia com uma maturidade que muitos diretores levam uma carreira inteira para alcançar.

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Perguntas frequentes sobre Vidas Passadas

Vidas Passadas é baseado em história real?

O roteiro se inspira em experiências pessoais de Celine Song, que deixou a Coreia do Sul ainda criança, mas a história e os personagens são ficcionais.

Vidas Passadas foi indicado ao Oscar?

Sim. Na cerimônia de 2024, recebeu indicações a melhor filme e melhor roteiro original.

Qual é a duração de Vidas Passadas?

106 minutos, cerca de 1 hora e 46 minutos.

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