Parasita: Bong Joon-ho transforma a luta de classes em suspense perfeito

Sinopse: A família Kim vive num semiporão apertado em Seul e sobrevive de bicos mal pagos. Quando o filho consegue um trabalho de professor particular na casa dos ricos Park, os Kim enxergam ali a chance de se infiltrar, um a um, na rotina da mansão.
Poucos filmes conseguem ser, ao mesmo tempo, uma comédia de costumes afiada, um thriller de invasão domiciliar e um ensaio sobre desigualdade sem que nenhuma dessas camadas soe como pretexto para as outras. Parasita consegue. Bong Joon-ho constrói aqui seu trabalho mais preciso, um filme em que cada degrau, cada janela e cada cheiro carregam sentido. Saímos da sessão com a sensação rara de ter visto um diretor no auge do controle sobre a própria linguagem, capaz de nos fazer rir e prender a respiração na mesma cena, e de deixar uma pergunta incômoda pairando muito depois dos créditos.
Qual é a história de Parasita?
O ponto de partida é quase de fábula. Ki-woo, o filho mais velho dos Kim, recebe de um amigo a indicação para dar aulas de inglês à filha adolescente dos Park, uma família abastada que vive numa casa de arquitetura impecável no alto da cidade. Com um diploma forjado pela irmã, Ki-jung, ele cruza o portão e percebe que aquele universo funciona à base de confiança, recomendações e aparências, justamente o tipo de moeda que os Kim aprenderam a falsificar com talento.
A partir daí, o roteiro de Bong Joon-ho e Han Jin-won se diverte com a engenharia do golpe. Cada novo membro da família que entra na casa exige um plano, uma mentira e uma vítima colateral, e o filme nos coloca numa posição moralmente desconfortável: torcemos pelos impostores enquanto observamos, com alguma culpa, o preço que outros pagam por isso. Sem revelar nada, basta dizer que a narrativa guarda uma virada no meio que redefine tudo o que pensávamos saber sobre aquela casa.
Como é a direção de Bong Joon-ho em Parasita?
Bong pensa o espaço como argumento. A casa dos Park é ampla, horizontal, banhada de luz natural, com uma janela enorme que enquadra o jardim como uma tela de cinema. O semiporão dos Kim, por sua vez, é vertical e espremido: a rua fica na altura dos olhos, bêbados urinam diante da janela e o vaso sanitário ocupa uma espécie de altar no alto do banheiro. A oposição entre subir e descer escadas, recorrente do início ao fim, transforma a geografia da cidade numa hierarquia social visível.
A fotografia de Hong Kyung-pyo trabalha com uma limpeza quase clínica nos interiores ricos e com tons esverdeados e úmidos no bairro pobre, sem jamais cair na caricatura. A montagem é outro triunfo: há uma sequência de manipulação, embalada pela trilha de Jung Jae-il em clima de música barroca, que funciona como um balé criminoso, cômico e tenso na mesma medida. Bong controla o ritmo com tamanha segurança que as mudanças bruscas de tom parecem inevitáveis, nunca arbitrárias.
As atuações de Parasita convencem?
Song Kang-ho, parceiro habitual do diretor, é o coração do filme. Seu Ki-taek é um homem de humor resignado, que já falhou em tantos negócios que aprendeu a não fazer planos, e o ator encontra nessa passividade uma melancolia que cresce aos poucos, até se manifestar em pequenos gestos de enorme peso. Choi Woo-shik e Park So-dam formam uma dupla de irmãos de química impecável, com destaque para a frieza calculista de Ki-jung, a trapaceira mais talentosa da família.
Do lado dos Park, Cho Yeo-jeong compõe uma dona de casa ingênua e ansiosa sem transformá-la em alvo fácil de deboche, e Lee Sun-kyun faz do patriarca um homem cordial cujo desconforto com certos cheiros diz mais sobre classe do que qualquer discurso. O elenco inteiro entende que não está num filme de vilões e mocinhos. Ninguém ali é exatamente mau; todos são, em alguma medida, produtos de um sistema que os coloca em lados opostos da mesma escada.
Vale a pena assistir Parasita?
Sem hesitação. Parasita é daqueles raros casos em que o prestígio, com a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme, o primeiro dado a uma produção falada em língua não inglesa, está à altura da experiência. Funciona para quem busca entretenimento puro, com reviravoltas e humor, e funciona para quem quer discutir o filme por horas depois. É também uma porta de entrada ideal para o cinema sul-coreano e para a filmografia de Bong.
Se há uma ressalva, ela é de expectativa: quem chega esperando um terror ou um filme de ação pode estranhar o primeiro ato mais leve, quase de comédia. Mas é justamente essa leveza que torna o restante tão devastador. Recomendamos assistir sabendo o mínimo possível, de preferência com atenção total e sem o celular por perto. Cada detalhe plantado na primeira hora será colhido mais adiante, e a recompensa vale cada minuto.
✔ Pontos positivos
- Roteiro milimétrico que mistura gêneros sem perder o controle
- Arquitetura e espaço usados como comentário social
- Elenco afinado, liderado por Song Kang-ho
✖ Pontos negativos
- Primeiro ato leve pode confundir quem espera um thriller tradicional
- Algumas metáforas visuais são sublinhadas com insistência
Parasita é uma obra-prima moderna: divertida, tensa e furiosa, com um diretor em pleno domínio da forma. Nota máxima sem ressalvas sérias.
Quer assistir filmes como Parasita?
Peça agora um teste grátis de IPTV pelo WhatsApp e assista filmes, séries e muito mais.
Perguntas frequentes sobre Parasita
Parasita ganhou o Oscar?
Sim. Na cerimônia de 2020, venceu quatro Oscars: melhor filme, direção, roteiro original e filme internacional. Foi o primeiro filme em língua não inglesa a levar o prêmio principal.
Qual é a duração de Parasita?
O filme tem 132 minutos, cerca de 2 horas e 12 minutos.
Quem dirigiu Parasita?
Bong Joon-ho, que também assina o roteiro com Han Jin-won. Ele é o diretor de O Hospedeiro e Expresso do Amanhã.