Barbie: Greta Gerwig faz uma festa cor-de-rosa inteligente, mas tropeça no discurso

Sinopse: Na perfeita Barbielândia, cada dia é igual ao anterior até que uma Barbie começa a ter pensamentos inesperados e a apresentar sinais de imperfeição. Para entender o que está acontecendo, ela viaja ao mundo real acompanhada de Ken e descobre que ele funciona com regras bem diferentes das que imaginava.
Barbie tinha tudo para ser um longo comercial de brinquedo, e em certa medida é. O que Greta Gerwig faz de surpreendente é transformar essa contradição em matéria-prima: o filme ri da Mattel, de si mesmo e do público enquanto encena um debate sobre feminilidade, masculinidade e expectativas impossíveis. O resultado é um espetáculo visual exuberante e frequentemente hilário, sustentado por um elenco em estado de graça. Mas, à medida que avança, o roteiro troca a sutileza pela explicação, e a sátira afiada do início dá lugar a um tom de palestra que enfraquece o conjunto.
Qual é a história de Barbie?
Margot Robbie vive a chamada Barbie Estereotipada, moradora de uma Barbielândia onde as Barbies ocupam todos os cargos de poder e os Kens existem basicamente para serem notados por elas. A rotina perfeita inclui banhos sem água, copos de leite imaginário e festas coreografadas toda noite. Até que, numa dessas festas, ela pergunta em voz alta se alguém já pensou na morte. A partir daí, sua vida cor-de-rosa começa a falhar em detalhes cada vez menos discretos.
Orientada pela Barbie Estranha, personagem de Kate McKinnon, ela parte para o mundo real em busca da pessoa que está brincando com ela, e Ken, vivido por Ryan Gosling, embarca de penetra. Em Los Angeles, os dois encontram realidades opostas: ela descobre que as mulheres não governam o mundo como imaginava, e ele descobre, encantado, o patriarcado. A colisão entre essas duas descobertas move o restante da trama, que envolve uma funcionária da Mattel interpretada por America Ferrera e sua filha adolescente.
Como é a direção de Greta Gerwig em Barbie?
Gerwig e a designer de produção Sarah Greenwood constroem a Barbielândia como um grande cenário artesanal, com casas sem paredes, céus pintados e um mar de plástico, dispensando o realismo digital em favor da lógica do brinquedo. A fotografia de Rodrigo Prieto abraça cores saturadas e iluminação de estúdio, evocando os musicais clássicos de Hollywood. É um dos trabalhos de direção de arte mais marcantes do cinema comercial recente, e o filme sabe disso: cada plano parece desenhado para virar imagem icônica.
A abertura que parodia 2001: Uma Odisseia no Espaço e o número musical de Ken, com coreografia de grandes proporções, mostram uma diretora disposta a brincar com a linguagem do cinema. O problema está no texto, escrito com Noah Baumbach. Muitas piadas são certeiras, mas a necessidade de explicitar a tese, em discursos que soam dirigidos diretamente à plateia, quebra a ironia que funcionava tão bem. Em vários momentos, o filme parece não confiar que o público entenderia a crítica sem legenda.
Margot Robbie e Ryan Gosling estão bem em Barbie?
Margot Robbie entende a personagem com precisão: começa como uma superfície plástica, de sorriso fixo e postura impecável, e aos poucos deixa a confusão e a tristeza rachar essa fachada. É uma atuação mais difícil do que parece, porque exige comédia física e vulnerabilidade sem perder o tom de fábula. Robbie, que também é produtora do filme, sustenta a narrativa mesmo quando o roteiro a deixa em segundo plano diante de personagens mais barulhentos.
Ryan Gosling, no entanto, rouba o filme. Seu Ken é patético, carente, vaidoso e absolutamente hilário, e o ator abraça o ridículo com uma entrega que poucos astros de seu porte se permitiriam. A canção "I'm Just Ken" virou fenômeno por mérito próprio. America Ferrera tem o monólogo mais comentado do longa e o entrega com convicção, embora o texto seja justamente o exemplo mais claro do didatismo que apontamos. Kate McKinnon e Issa Rae completam um elenco de apoio impecável.
Vale a pena assistir Barbie?
Sim, sobretudo como experiência de cinema popular feita com assinatura autoral. Barbie é divertido, visualmente deslumbrante e tem ideias de sobra, o que já o coloca bem acima da média dos filmes baseados em produtos. A trilha, com canções originais de diversos artistas, mantém a energia de festa, e a balada "What Was I Made For?", de Billie Eilish e Finneas, rendeu ao filme o Oscar de melhor canção original.
Ainda assim, a nota reflete a frustração de ver um filme tão inteligente na forma se tornar repetitivo no discurso. O terceiro ato, em especial, perde ritmo e resolve conflitos com pressa. Para quem cresceu com a boneca, há nostalgia e autocrítica em doses generosas; para quem não tem ligação com a marca, o humor de Gosling e o design de produção já valem o ingresso. Só não espere uma sátira tão corrosiva quanto o marketing prometia.
✔ Pontos positivos
- Direção de arte e figurinos deslumbrantes
- Ryan Gosling em atuação cômica memorável
- Humor autoconsciente que funciona na maior parte do tempo
✖ Pontos negativos
- Roteiro explica a própria tese em excesso
- Terceiro ato apressado e repetitivo
Uma festa pop com cérebro e muito estilo, que só tropeça quando deixa de confiar na inteligência do público. Diverte bastante, mas poderia ser mais ousado.
Quer assistir filmes como Barbie?
Peça agora um teste grátis de IPTV pelo WhatsApp e assista filmes, séries e muito mais.
Perguntas frequentes sobre Barbie
Quem dirigiu Barbie?
Greta Gerwig, que também escreveu o roteiro com Noah Baumbach. Antes, ela dirigiu Lady Bird e Adoráveis Mulheres.
Barbie ganhou algum Oscar?
Sim, o de melhor canção original por "What Was I Made For?", de Billie Eilish e Finneas O'Connell. O filme recebeu oito indicações, incluindo melhor filme.
Quando Barbie estreou no Brasil?
Em 20 de julho de 2023, um dia antes da estreia nos Estados Unidos.